MEMÓRIA COLETIVA, TRAUMA E SUICÍDIO EM POVOS INDÍGENAS
DOI:
https://doi.org/10.56238/revgeov17n1-010Palavras-chave:
Desterritorialização, Memória Coletiva, Trauma-Histórico, Suicídio, IndígenasResumo
O suicídio indígena no Brasil constitui um fenômeno complexo, cuja compreensão ultrapassa explicações individualizantes ou biomédicas. Este artigo apresenta uma revisão integrativa que analisa como a memória coletiva do trauma histórico da desterritorialização contribui para a produção do sofrimento indígena contemporâneo. A busca foi realizada nas bases SciELO, LILACS, BVS e BDTD, entre 2020 e 2025. Os resultados indicam que o suicídio indígena está profundamente relacionado às violências coloniais, à ruptura territorial e à fragilização das redes comunitárias. A desterritorialização afeta dimensões espirituais, cosmológicas e identitárias, provocando descontinuidades na vida coletiva e intensificando sentimentos de desamparo entre jovens. A memória coletiva de massacres, expulsões e abandono estatal, quando não elaborada, transforma-se em trauma histórico, permeando narrativas, afetos e formas de pertencimento. Por outro lado, processos de retomada territorial e reafirmação cultural demonstram potencial para ressignificar memórias traumáticas e fortalecer a resistência comunitária. Conclui-se que políticas de prevenção ao suicídio indígena devem integrar ações de saúde mental com garantia territorial, fortalecimento cultural e reconhecimento da autonomia dos povos indígenas. O presente artigo foi escrito como forma de aprovação para a disciplina de Memória, Identidade e Patrimônio do programa de pós graduação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
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