MEMÓRIA CORPORAL E ADOECIMENTO: UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA
DOI:
https://doi.org/10.56238/revgeov17n4-201Palavras-chave:
Adoecimento, Corpo Vivido, Memória Corporal, Dúvida Corporal, FenomenologiaResumo
Considerando a necessidade de uma ampliação da compreensão sobre o adoecimento que vá além dos seus aspectos capturáveis de um ponto de vista biológico e material, o presente trabalho visa contribuir para uma discussão filosófica que contemple a dimensão existencial da experiência vivida por quem padece de alguma enfermidade, especialmente em casos crônicos e debilitantes. Nesse sentido, objetiva-se aqui desenvolver uma abordagem fenomenológica do adoecimento, tendo como base a filosofia de Martin Heidegger, e seguindo como fios condutores os conceitos de corpo vivido, memória corporal e dúvida corporal. Para tanto, recorre-se a uma revisão bibliográfica de trabalhos ligados à análise fenomenológica da enfermidade. Primeiramente, o texto apresenta a compreensão heideggeriana da existência e da corporeidade humanas, através da análise de seu conceito de corpo vivido (Leib). Em seguida, trata da noção de memória corporal elaborada por Thomas Fuchs e Edward Casey, entendida como a totalidade de disposições, práticas e habilidades que se desenvolvem e estabelecem no amadurecimento de alguém através do corpo vivido, condicionando a existência de modo implícito. Com essa base filosófica, apresenta-se uma interpretação fenomenológica do adoecimento recorrendo a pesquisadores como S. Kay Toombs, Fredrik Svenaeus, Roberto Nogueira, Robson Reis e Havi Carel. A hipótese trabalhada a partir desses autores é de que o adoecimento não se reduz a uma disfunção fisiológica, mas envolve uma ruptura radical no modo de ser-no-mundo do enfermo, que tem em seu núcleo uma dúvida corporal – isto é, uma perturbação da memória corporal que condiciona o acesso cotidiano ao mundo.
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