REMODELAMENTO CARDÍACO FISIOLÓGICO EM ATLETAS DE ENDURANCE: UMA REVISÃO NARRATIVA
DOI:
https://doi.org/10.56238/revgeov17n3-160Palavras-chave:
Remodelamento Cardíaco, Coração do Atleta, Atletas de Endurance, Hipertrofia Ventricular Esquerda, Fisiologia do ExercícioResumo
O remodelamento cardíaco fisiológico induzido pelo exercício representa um conjunto de adaptações estruturais e funcionais que ocorrem no miocárdio em resposta à prática crônica de atividade física intensa, sendo particularmente evidente em atletas de endurance. Esse fenômeno reflete a plasticidade do sistema cardiovascular diante das elevadas demandas metabólicas impostas pelo exercício aeróbico prolongado, caracterizado por aumentos sustentados do débito cardíaco associados à manutenção ou redução da resistência vascular periférica. Nesse contexto hemodinâmico, estabelece-se uma sobrecarga crônica de volume que atua como principal estímulo mecânico para o estiramento das fibras miocárdicas, desencadeando um processo de remodelamento cardíaco relativamente equilibrado que envolve a expansão das quatro câmaras cardíacas. Entre essas adaptações estruturais, o ventrículo esquerdo desempenha papel central na otimização do desempenho cardiovascular. Uma das manifestações mais marcantes desse processo é o aumento do volume sistólico, decorrente da ampliação da cavidade ventricular associada ao aumento da complacência miocárdica, permitindo que o coração ejete maiores volumes de sangue sem comprometimento da função sistólica. Como consequência, observa-se aumento do volume diastólico final do ventrículo esquerdo, mecanismo fundamental para a geração de débitos cardíacos elevados durante o esforço físico. Do ponto de vista estrutural, a adaptação mais característica observada em atletas de endurance é a hipertrofia ventricular esquerda excêntrica, padrão geométrico definido pela dilatação da cavidade ventricular acompanhada de aumento proporcional da massa miocárdica e da espessura das paredes. Esse padrão resulta principalmente da sobrecarga de volume associada ao exercício de resistência e permite a expansão ventricular sem perda da eficiência contrátil. Evidências obtidas por estudos ecocardiográficos e de ressonância magnética demonstram que esse remodelamento se caracteriza por aumento das dimensões das câmaras cardíacas e da massa ventricular esquerda, configurando o fenótipo predominante de adaptação cardíaca em atletas de endurance.
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