“A RUA É UM ATRATIVO” - DISCURSO DA ELITE BRASILEIRA SOBRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS
DOI:
https://doi.org/10.56238/revgeov17n1-055Palavras-chave:
Pobreza, Fome, Insegurança Alimentar, População de RuaResumo
O artigo analisa o discurso da elite brasileira sobre a pobreza e a população em situação de rua tomando como objeto empírico a entrevista concedida pela então primeira-dama do Estado de São Paulo, Bia Doria, em julho de 2020, em que afirma que permanecer morando nas ruas é uma escolha individual. A partir de uma abordagem teórico-analítica fundamentada na sociologia política e na literatura sobre políticas públicas, pobreza e desigualdade social, o estudo contrapõe tal discurso a evidências empíricas e a interpretações consolidadas das ciências sociais, econômicas e biomédicas. Mobilizam-se contribuições de autores como Lindblom, Reis, Schwartzman, Abramovay e Katz, bem como dados do Censo da População em Situação de Rua de São Paulo (2019) e informações epidemiológicas sobre morbidades associadas à desnutrição e à vulnerabilidade social. Os resultados evidenciam que a narrativa analisada reproduz uma visão malthusiana da pobreza, desconsiderando seus determinantes estruturais, as desigualdades socioeconômicas e as violações de direitos vivenciadas pela população de rua. Argumenta-se que tal discurso contribui para o esvaziamento da percepção de responsabilidade coletiva e para a legitimação de políticas públicas pouco efetivas ou excludentes. Conclui-se que as elites desempenham papel central na formulação e implementação de políticas sociais e que o negacionismo em relação às evidências científicas compromete a construção de respostas públicas capazes de enfrentar a pobreza, a fome e a insegurança alimentar de forma estrutural.
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Referências
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