BILINGUISMO, DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E DUALISMO EDUCACIONAL: A REPRODUÇÃO DAS DESIGUALDADES ENTRE AS REDES PÚBLICA E PRIVADA NO BRASIL

Autores

  • Mario Sergio Silva
  • Leonice Maria Wille Catto
  • Mateus Martins Moreira
  • Carmen Frantz Kliemann
  • Nicheli Rodrigues Santos
  • Francieli Hein Suzin
  • Ana Paula Carneiro

DOI:

https://doi.org/10.56238/revgeov17n1-021

Palavras-chave:

Bilinguismo, Desenvolvimento Cognitivo, Dualismo Educacional, Desigualdade Educacional, Políticas Públicas

Resumo

Este trabalho analisa criticamente como o bilinguismo opera simultaneamente como promessa de desenvolvimento cognitivo e mecanismo de reprodução das desigualdades educacionais no sistema dual brasileiro. O objeto de pesquisa investiga a articulação entre benefícios scientificamente comprovados do bilinguismo e sua distribuição desigual entre escolas públicas e privadas, caracterizando essa desigualdade como expressão estrutural de um projeto educacional que naturaliza hierarquias sociais. A metodologia combina análise da literatura científica sobre desenvolvimento cognitivo bilíngue com autores como Bialystok, Jasińska e Dias e Muner, com crítica sociológica marxista fundamentada em Saviani e Libâneo. Como procedimento empírico, realizou-se estudo comparativo de boletins escolares de dois alunos do segundo ano do ensino médio: um bilíngue precoce (português-inglês e espanhol) e outro monolíngue, ambos da rede pública. Os resultados revelam que o estudante bilíngue apresentou desempenho 23% superior ao monolíngue, com vantagens concentradas em disciplinas que demandam flexibilidade cognitiva como Física, Química e Interpretação de Textos. Os benefícios cognitivos do bilinguismo, estimados entre 10% e 25% em funções executivas, permanecem inacessíveis à maioria dos estudantes da rede pública, transformando-se em capital cultural exclusivo das elites. Conclui-se que o bilinguismo no Brasil funciona como dispositivo de distinção social que mascara privilégios de classe como mérito individual. Transformar essa realidade exige investimento público massivo em bilinguismo de qualidade na educação infantil, formação contínua de professores, condições estruturais equivalentes à rede privada e ruptura ideológica com discursos vazios de "inclusão". Somente através de transformações redistributivistas o bilinguismo se tornará direito educacional universal e ferramenta de emancipação cognitiva para todos os brasileiros.

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Publicado

2026-01-12

Como Citar

Silva, M. S., Catto, L. M. W., Moreira, M. M., Kliemann, C. F., Santos, N. R., Suzin, F. H., & Carneiro , A. P. (2026). BILINGUISMO, DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E DUALISMO EDUCACIONAL: A REPRODUÇÃO DAS DESIGUALDADES ENTRE AS REDES PÚBLICA E PRIVADA NO BRASIL. Revista De Geopolítica, 17(1), e1243. https://doi.org/10.56238/revgeov17n1-021